O Imaginário de Raquel Feferbaum

Esta mostra estrutura uma produção que engloba várias décadas de trabalho constante. Forma conjunto que sustenta fluxos de transformações, afazeres e abriga o pensar da Arte.

Percorrendo diferentes ateliers, usando de experimentações e múltiplos suportes e materiais, Feferbaum acerca-se da condição de cúmplice com sua obra; construindo novos espaços; projetando com seu estilo o contágio do processo criador. Esses segmentos se afirmam como pura imagem, onde através das suas produções constantes lega ao público um imaginismo peculiar, elegante por vezes, desagregador porque se intensifica num pensamento crítico aparentemente dionisíaco onde figuras contracenam com uma organização de intervenções persuasivas.

O Rio de Janeiro é elo de inspiração e integração para as suas composições. As imagens irrompem numa prerrogativa de alimentar o fato artístico, ora enaltecendo, ora denunciando os erros e os acertos dos homens.

É o intenso verde das matas, o contraste com o céu exuberante e o mar poético. É o incontrolável crescimento da cidade padronizando o visual, o relevo legado pela sábia natureza, transfigurando...

Nessa processualidade criadora está latente o elemento contestador.

A automatização captada fomenta necessidade de inserir outra relação que atenue este quadro. Surge o elemento atemporal (as meninas), onde a singularidade dos seus personagens alerta e traz esperança contra uma visão sistematicamente pessimista do mundo.

Há nos seus afazeres fragmentos de detalhes remetendo-nos de imediato à situações do cotidiano. Cria temas e personagens onde a memória representativa aproveita o passado e acena para o futuro. Essa virtualização clarifica sem prender-se à estratégias que cerceiem seu individual.

Raquel Feferbaum está ligada a um olhar sem qualquer artificialidade. Impulsionada para um deslocamento além da naturalidade gera situações onde signos e valores arquetipianos montam outra espacialidade revelando a artista instantânea, dinâmica agencializando outro contexto, nossa época, o momento atual.


Vicente de Percia
Texto sobre a Exposição "O Imaginário de Raquel Feferbaum"
Centro Cultural Justiça Federal - Rio de Janeiro - 11 de dezembro de 2002 a 09 de março de 2003


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Vicente de Percia é Membro da Associação Brasileira (A.B.C.A.) e Internacional (A.I.C.A.) de Críticos de Arte.


Conexões

O “real” e o imaginário coabitam no conjunto das pinturas de Raquel Feferbaum. Cada entrelace monta novas possibilidades estruturais - são parcelas revelando determinada organização -, podendo ser observada no desfeche do trabalho, na sistemática do fazer.

A paisagem citadina com o mar, as montanhas de muito verde, o interior das casas, são tônicas presentes nas suas composições.

Utiliza de estratégias procurando descobrir a simplicidade dos diferentes momentos da vida. São somatórios de grande valia no processo artístico, num desejo de simplificar a realidade complexa da vida e de povoar seu mundo com as múltiplas representações do Homem. Vários fatores se juntaram nesta fase, um deles “as meninas”, arquétipo central, que se acopla a outros suscitando reflexões, fantasias e associações com o nosso tempo.

Feferbaum utiliza-se de várias técnicas, entre elas a da colagem e com isso surge o gesto expressivo onde a cor se projeta com mais força ressaltando os contornos e os altos e baixos relevos, espirais, manchas, signos. O magicismo cria novas circunstâncias numa variedade de combinações pictóricas e em outras ocasiões se tornam tênues, apaziguando as configurações do seu redor.

Assumir o fluxo da arte, questionar o belo é um importante observar. Raquel Feferbaum com mestria fixa seu estilo, marcando sua individualidade no circuito das artes.


Vicente de Percia
Texto sobre a Exposição "Conexões"
Museu Nacional de Belas Artes - Rio de Janeiro - 12 de junho a 15 de julho de 2001


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Vicente de Percia é Membro da Associação Brasileira (A.B.C.A.) e Internacional (A.I.C.A.) de Críticos de Arte.