Ao reencontrar a exposição “Mãos que Constroem: Cidades”, a artista Adriana Nassar não apenas reapresenta uma série fotográfica concebida em 2012; ela reinscreve no presente uma reflexão profundamente necessária sobre humanidade, pertencimento e invisibilidade social. Nesta nova travessia expositiva, as imagens ultrapassam o campo documental para assumirem a condição de testemunhos vivos da experiência urbana contemporânea. O olhar da artista desloca o espectador para aquilo que as cidades frequentemente ocultam sob o ritmo acelerado da vida moderna: os corpos anônimos que sustentam o crescimento das metrópoles, as mãos silenciosas que erguem estruturas, desenham horizontes e constroem, diariamente, a continuidade material e simbólica do mundo.
A fotografia de Adriana Nassar produz uma arqueologia sensível do trabalho humano. Seus enquadramentos capturam fragmentos aparentemente ordinários do cotidiano, mas transformam tais instantes em territórios de densidade estética, histórica e afetiva. As mãos marcadas pelo cimento, pela areia, pelo peso das ferramentas e pela repetição exaustiva do labor deixam de ser apenas extensões do corpo para tornarem-se arquivos vivos da memória social brasileira. Cada fissura da pele revela permanências invisíveis, narrativas de resistência e saberes silenciosamente transmitidos através das gerações. Existe, nesta série, uma monumentalidade contida que confronta a lógica contemporânea da invisibilidade, devolvendo centralidade humana àqueles que historicamente permaneceram à margem da narrativa urbana oficial.
Ao apresentar esta exposição na Nossa Galeria de Arte, a experiência do público é ampliada para além do campo contemplativo. O visitante é convocado a atravessar camadas mais profundas de percepção, compreendendo que as cidades não são constituídas apenas por concreto, aço ou planejamento arquitetônico, mas sobretudo por presenças humanas que carregam exaustão, coragem, esperança, permanência e dignidade. Adriana Nassar reconstrói poeticamente a dimensão humana da paisagem urbana, revelando aquilo que o cotidiano insiste em tornar invisível: a cidade como corpo coletivo, edificada por vidas que permanecem impressas em cada parede, em cada edifício e em cada vestígio arquitetônico do presente.
“Mãos que Constroem: Cidades” reafirma, assim, o papel da arte como instrumento de reposicionamento ético do olhar contemporâneo. Ao transformar trabalhadores anônimos em protagonistas de uma poderosa narrativa visual, Adriana Nassar tensiona estética e realidade, documento e memória, denúncia e homenagem. Sua obra não trata apenas da construção civil; trata da construção da própria experiência humana dentro das cidades. Trata daquilo que sustenta silenciosamente a continuidade das sociedades, das histórias que raramente ocupam os centros de visibilidade e das existências que permanecem gravadas, ainda que invisíveis, na anatomia urbana do país.
Nesta nova apresentação, a exposição ressurge não como repetição do passado, mas como expansão crítica e sensível da consciência coletiva. Em tempos marcados pela velocidade, pela automatização e pelo distanciamento humano, Adriana Nassar devolve presença àquilo que parecia dissolvido na rotina das cidades. Suas fotografias fazem emergir a humanidade silenciosa que edifica o mundo, reafirmando que toda cidade carrega, impressa em sua matéria, as marcas invisíveis daqueles que a tornaram possível.
Por Xanda Nascimento, 2026.
Curadora da Nossa Galeria de Arte