Arqueologia dos Afetos

Memória, Tempo e Permanência

Na Sala Horizon até 08/12/2026

 

Doze anos após sua primeira apresentação, esta exposição retorna não como lembrança, mas como reencontro. "Arqueologia dos Afetos: Memória, Tempo e Permanência" reúne trinta obras produzidas entre 2014 e 2021, revisitando diferentes momentos da trajetória de Xanda Nascimento sob uma nova perspectiva. O que antes se apresentava como um percurso pela sensibilidade revela-se agora como um testemunho da capacidade da arte de atravessar o tempo, dialogar com diferentes contextos históricos e manter intacta sua potência comunicativa.

Poeta das palavras, das linhas e das cores, Xanda constrói uma linguagem singular na qual imagem e verbo coexistem como matéria indissociável. Poemas fragmentados, signos visuais, formas e cores entrelaçam-se na construção de narrativas abertas, convidando o espectador a percorrer territórios subjetivos marcados por desejos, ausências, conflitos, descobertas e permanências. Seus trabalhos ultrapassam a contemplação estética e operam como espaços de reflexão, onde razão e emoção dialogam, confrontam-se e, por vezes, reconciliam-se.

Ao reunir obras concebidas em diferentes períodos, a exposição evidencia continuidades e transformações. Se os trabalhos de 2014 mergulham nas camadas mais íntimas da experiência humana, investigando sentimentos, memórias e inquietações existenciais, as obras produzidas em 2021 ampliam esse campo de investigação ao incorporar referências ao universo digital, às novas dinâmicas de comunicação e às relações mediadas pela tecnologia. Títulos como "Antivírus", "Bytes in Pointillism", "Like Crows", "Soul Sound" e "The Mouse" introduzem novas questões ao percurso expositivo, revelando uma artista atenta às mudanças do seu tempo sem abandonar a dimensão humana que sustenta toda a sua produção.

A técnica empregada por Xanda Nascimento também desempenha papel fundamental na construção conceitual da mostra. Desenvolvidas em digigrafia e impressas sobre papel fotográfico, as obras situam-se na convergência entre criação artística, linguagem digital e materialidade física. Nesse processo, a imagem nasce em ambiente tecnológico, mas encontra permanência na superfície impressa, transformando dados, gestos e experimentações visuais em presença concreta. A escolha da digigrafia não se apresenta apenas como recurso técnico, mas como extensão da própria poética da artista, estabelecendo um diálogo entre memória e contemporaneidade, entre o efêmero do universo digital e a permanência da obra de arte como registro sensível da experiência humana.

A mostra apresenta uma geografia afetiva em constante transformação. Sentimentos como amor, solidão, liberdade, pertencimento, esperança, inquietação e transcendência surgem não como respostas, mas como caminhos possíveis para a escuta interior. Obras como "O Céu Dentro de Mim", "Fronteira da Pele", "O Tempo Cobiça", "Vamos Colher Flores à Beira do Abismo" e "O Resto é Nada. O Resto é Paz" revelam uma artista interessada em investigar os paradoxos da existência humana, transformando emoções em paisagens visuais e reflexões poéticas. Cada composição propõe um exercício de observação, sugerindo que aquilo que sentimos constitui uma das mais profundas formas de conhecimento.

Ao longo desses anos, as obras permaneceram. O mundo, porém, transformou-se. As relações humanas ganharam novas dinâmicas, a tecnologia redefiniu comportamentos e a velocidade da informação alterou nossa percepção do tempo. Nesse contexto, a exposição adquire novos significados. As questões que atravessam cada imagem continuam atuais porque pertencem à essência da condição humana. Em uma realidade marcada pela aceleração constante, pela multiplicação das vozes e pela dispersão da atenção, a mostra propõe um movimento contrário: o retorno ao encontro consigo mesmo. Cada obra torna-se um ponto de reflexão, cada fragmento poético uma bússola sensível e cada imagem um espaço de reconhecimento.

Mais do que revisitar uma produção artística, esta exposição propõe uma reflexão sobre aquilo que permanece quando os anos passam. O que resistimos em esquecer? Quais emoções continuam habitando nossa memória? De que forma o tempo modifica nossos olhares sem apagar nossas experiências? A trajetória de Xanda Nascimento como artista visual, poeta, curadora e produtora cultural amplia essa leitura. Sua atuação em prol da arte contemporânea e da valorização dos artistas brasileiros confere à mostra uma dimensão que ultrapassa o âmbito individual, transformando-a em um espaço de encontro entre diferentes vivências, sensibilidades e tempos históricos.

A noção de arqueologia presente nesta exposição não se refere à escavação de objetos ou vestígios materiais. Trata-se de uma investigação interior construída por memórias, afetos, ausências, desejos e questionamentos. Cada obra funciona como uma camada desse processo arqueológico, revelando marcas do tempo, rastros da experiência e fragmentos daquilo que nos constitui. São percursos sem fronteiras fixas, que se transformam a cada novo olhar, revelando que o ser humano é simultaneamente viajante, caminho e destino.

"Arqueologia dos Afetos: Memória, Tempo e Permanência" é um convite à contemplação, ao reconhecimento e à descoberta. Quem somos diante de nossos desejos? O que permanece quando o tempo atravessa a memória? Como preservamos nossa humanidade em um mundo cada vez mais mediado por tecnologias e fluxos digitais? Onde termina a realidade e começa aquilo que sentimos?

Ao atravessar estas obras entre revelações e silêncios, entre certezas e vertigens, talvez o visitante descubra que esta exposição não oferece respostas definitivas. Oferece algo mais valioso: a rara oportunidade de escavar a própria existência e encontrar, sob as camadas do tempo, aquilo que sempre esteve à espera de ser reconhecido.

 

Xanda Nascimento, 2026.