Manoel Dias de Souza nasce em 1º de junho de 1947, em Itabuna, no sul da Bahia, território fértil não apenas pela natureza, mas pela intensidade simbólica que molda imaginários. É ali, ainda criança, que inicia sua jornada artística ao tocar o barro da própria terra, transformando matéria bruta em figuras humanas e animais. Esse gesto inaugural não é apenas um exercício manual, mas o prenúncio de uma trajetória marcada pela investigação sensível da forma, pela escuta silenciosa do mundo interior e pela necessidade vital de criar. Ao longo dos anos, amplia seu repertório técnico por meio do artesanato, da pintura e do desenho, sempre guiado por um impulso de aperfeiçoamento contínuo. Sua passagem pelo Corpo de Fuzileiros Navais acrescenta à sua personalidade artística uma dimensão de disciplina e rigor, elementos que sustentam a liberdade expressiva que viria a caracterizar sua obra. Radicado em Brasília desde 1960, o artista carrega consigo uma síntese rara que une a organicidade do nordeste, a estrutura da vida militar e a maturidade reflexiva de quem fez da arte um território de travessia.
Para Manoel Dias, fazer arte não é representar o mundo, mas reorganizá-lo. Sua produção revela um compromisso profundo com a harmonia dos temas, com a intensidade das cores e com a potência simbólica das formas. É no campo do abstracionismo que sua linguagem encontra sua expressão mais radical, afastando-se de respostas fáceis e recusando qualquer acomodação do olhar. Ao desintegrar a realidade visível, o artista reconstrói um universo onde a forma deixa de ser referência e passa a ser experiência. Dessa forma, a pintura de Manoel Dias emerge como um campo de forças onde a interioridade se projeta e se fragmenta, recusando limites e enfrentando a impossibilidade de capturar o absoluto. Há, em sua poética, uma consciência aguda de que a busca pelo essencial na arte abstrata se sustenta em uma tensão contínua entre intenção e resultado, entre controle e entrega. É nessa tensão que sua obra adquire densidade histórica e relevância estética, afirmando-se como um território onde o mundo subjetivo do artista se torna medida de realidade. Sua produção mais recente aponta para uma depuração formal que se aproxima do essencial, conduzida por um gesto quase instintivo, como se operasse em estado de fluxo guiado por um inconsciente ativo.
É também no campo tridimensional que Manoel Dias expande sua investigação poética, especialmente por meio de esculturas em concreto celular, material que lhe permite explorar simultaneamente leveza estrutural e densidade simbólica. Nessas obras, o artista tensiona matéria e vazio, criando volumes que parecem respirar e se reorganizar no espaço. O concreto celular, com sua porosidade e textura singular, torna-se território de experimentação sensível, onde cortes, incisões e relevos instauram ritmos visuais e táteis. Suas esculturas não se impõem como massas rígidas, mas como organismos em transformação, revelando uma busca constante por equilíbrio entre força e fragilidade. Paralelamente, suas pinturas em acrílica sobre placa de eucatex e sobre tela reafirmam sua versatilidade técnica, explorando diferentes níveis de absorção, resistência e resposta da superfície, o que amplia as possibilidades gestuais e cromáticas de sua linguagem abstrata.
As pinceladas, ora vigorosas, ora delicadas, constroem campos visuais que evocam simultaneamente ordem e caos, infância e sofisticação, impulso e controle. O resultado é uma experiência visual que exige do espectador uma participação ativa, sem impor narrativas, mas abrindo caminhos para a descoberta individual. Outro aspecto singular de sua prática é o uso de instrumentos criados pelo próprio artista, o que reforça a autonomia de seu processo e transforma o ato de pintar em uma experiência profundamente autoral. Manoel Dias conduz sua tela como um maestro conduz sua orquestra, em um movimento preciso onde cada gesto carrega intenção e cada pausa se converte em linguagem.
No universo pictórico de Manoel Dias, cada obra se revela como um território vivo onde gesto, matéria e intenção se entrelaçam de forma indissociável. Seus instrumentos são mediadores de uma linguagem singular que transforma o ato de pintar em uma experiência quase ritualística. Sua pintura nasce de um movimento interior profundo, onde sua essência se projeta em formas e cores que recusam limites e convidam o olhar a percorrer caminhos não lineares. Há, em seu processo, uma tensão fértil entre disciplina e impulso, entre rigor e liberdade, que sustenta uma criação pulsante e autêntica. Ao espectador não é oferecida uma resposta pronta, mas um campo aberto de sensações e significados, onde cada interpretação se torna parte da obra. Nesse mergulho, a pintura deixa de ser apenas imagem e se converte em experiência, conduzindo quem observa a um estado de presença sensível diante da força essencial das formas, das cores e do gesto.
Assim, sua obra ultrapassa o plano visual e se constitui como uma travessia por sonhos, medos, memórias e intuições. Trata-se de uma cartografia emocional que se materializa em cores, luzes e sombras, expandindo o campo da pintura para além da representação. Manoel Dias inscreve-se como um artista que dialoga com a tradição do abstracionismo ao mesmo tempo em que a tensiona e reinventa, construindo um percurso singular. Sua obra permanece em constante transformação, um espaço onde o visível e o invisível se encontram e onde a arte reafirma sua capacidade de traduzir aquilo que ultrapassa os limites da linguagem.
Por Xanda Nascimento, 2026.
Curadora da Nossa Galeria de Arte