O processo criativo de Manoel Dias, considerando a pintura e a escultura, nasce de uma necessidade de pensar a forma para além de sua aparência, compreendendo-a como acontecimento em transformação. Antes de qualquer gesto, o artista se coloca em estado de observação ampliada, onde referências visuais, experiências táteis e percepções espaciais começam a se articular. Nesse campo inicial, a ideia não surge como imagem pronta, mas como impulso que busca corpo, exigindo do artista uma escuta sensível capaz de reconhecer quando intervir e quando permitir que a própria matéria sugira caminhos. A criação, portanto, não é antecipação, mas construção progressiva de sentido, onde o invisível se torna visível por meio de decisões que se revelam no fazer.
Na pintura, esse processo se manifesta na relação direta entre gesto, superfície e tempo, configurando um espaço onde cada camada não apenas cobre, mas reconfigura o que veio antes. A tinta deixa de ser apenas meio e passa a atuar como agente ativo, reagindo às ações do artista e instaurando diálogos entre cor, densidade e ritmo. Já na escultura, o processo criativo assume uma dimensão espacial mais incisiva, na qual a matéria possibilita novas direções, negociando peso, equilíbrio e resistência. Cortar, acrescentar, retirar ou deslocar não são apenas operações técnicas, mas decisões capazes de abrir novas direções e complexificar a linguagem, reorganização da presença da escultura no espaço.
O ponto de convergência entre pintura e escultura reside na compreensão de que criar é instaurar relações: entre cheio e vazio, entre superfície e profundidade, entre controle e imprevisibilidade. Manoel Dias transita entre essas dimensões sem hierarquizá-las, permitindo que uma linguagem interaja com a outra e expanda suas possibilidades. O resultado não é uma síntese estável, mas um campo aberto onde cada obra se apresenta como fragmento de um processo maior, sempre em curso. Assim, o processo criativo de Manoel Dias não se encerra na finalização de uma peça, mas se prolonga como investigação contínua, na qual cada trabalho alimenta o seguinte, mantendo viva a prática artística como experiência de descoberta permanente.
Por Xanda Nascimento, 2026.
Curadora da Nossa Galeria de Arte