Mauricio Duarte

São Gonçalo/RJ


Mauricio Duarte

Brutais Sutilezas

O melting pot da cena artística contemporânea fervilha minha mente no que concerne à abstração. Um neo-expressionismo abstrato que dialoga com a força do tachismo e com o gestual do action painting – de modos e níveis tão diferentes em reformulações e releituras gráficas, predominantemente gráficas, que seria contraproducente tentar listar aqui – sintetizando colagens, recortes, linhas, traços, pontos, borrões, cores e formas num anseio por movimento e explosão visuais. Mas que movimento é este? Qe explosão é esta? Um movimentar-se que se apresenta num crescendo – ou num decrescendo – de complexidade sutil e de carga expressiva, de peça para peça da série. Explosão de cores complementares que dialogam. O diálogo, no entanto, é espontâneo. Em nenhum momento paro o que estou fazendo para “ver uma referência” ou “pesquisar um tema”. As pesquisas são anteriores à realização das obras.

A série Brutais sutilezas, bem como outras séries, apresenta um universo particular meu e, ao mesmo tempo, uma força emocional que é universal, que se dá a todo instante que a sensibilidade permite.

Sensibilidade esta, tão dilapidada por infovias de informação de redes sociais, canais de TV por assinatura, rádios, podcasts, e-book, vídeos e tudo o mais que possa ser elencado como fonte de lazer, entretenimento, saber, curiosidade ou mero diletantismoo mas que passa a ser só stress ou neurose em um certo ponto do tempo.

Todos são reduzidos a marcas hoje em dia. E imprimir sua marca, sua assinatura, sua rubrica nesse universo é uma palavra de ordem. Nesse sentido, essa marca, que competirá com tantas outras, precisa “dizer ao que veio”, precisa “ter presença”. Numa área urbana é possível surtar com a quantidade de apelos informacionais que a todo segundo extrapolam o contexto do próprio caos, para se reorganizarem – ou não – em mapas mentais organizadamente desordenados, onde só cada um de nós sabe o que é o que e o que está onde. “O todo é simultaneamente mais e menos que a soma das partes”, já disse Edgar Morin. A colcha de retalhos que forma a tapeçaria da nossa vida é brutal, mas é sutil também.

Trazer a arte abstrata para o cotidiano do público médio é unir estes dois pontos. É reconhecer, simultaneamente, a nossa objetividade, olhando por fora e a nossa subjetividade, perscrutando por dentro. Enfim, é criar sem amarras e sem muros numa arte que possa transcender sua própria prática no gesto da emoção catártico e alcançar uma catarse emotiva em sua mirada de fruição. Contextualizados esse gesto e essa mirada, conforme Umberto Eco, no que a peça de arte, em sua poética de sugestão tem de melhor, esta interpretação estará aberta à livre reação do fruidor.