Sobre a tela “Anonymus”

Oscar D’Ambrosio


Anonymus

Delicado mistério

Desde o momento em que arte passou a ganhar um status relevante no mundo ocidental burguês, as assinaturas dos artistas começaram a ser prevalentes. As pessoas têm orgulho de ter um “Portinari” em casa, não se importando muito com a qualidade. Analogamente, referências da literatura universal têm a sua autoria discutida, como as obras de Homero.

A questão do artista desconhecido ou anônimo desperta grande curiosidade. É o que ocorre com a pintura de Juianna Vidnik que retrata a escultura “Anonymus”, em Budapeste, Hungria, feita por Miklós Ligeti, em 1903, que retrata um autor desconhecido – provavelmente um cronista do Rei Béla III, que viveu no século XII – de histórias daquele país na Idade Média.

Alimenta ainda mais o mito uma tradição: quem tocar a caneta de ouro da estátua terá sabedoria e sorte. Paulistana, descendente de húngaros, Julianna, já seguiu a lenda e apresenta em seus trabalhos diversas interpretações visuais, geralmente idílicas do país europeu, destacando a natureza e a integração das pessoas com o ambiente.

Ao criar seu “Anonymus”, principalmente pela forma como a cor instaura uma unidade visual entre a escultura e a vegetação, a artista acentua o clima de mistério em torno do lendário personagem. Os limites entre realidade e ficção se esvaem e ganha força a expressividade visual em nome daquilo que a arte tem de melhor: seu delicado mistério.

Oscar D’Ambrosio, 2020.


Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.