Yiara Hillebrand

Processo Criativo


Sempre envolvida pela arte, fosse a dança ou a música, ou os incansáveis e extremamente criativos trabalhos artísticos realizados por minha mãe, seria de se esperar, talvez, a construção de um caminho semelhante ao que tenho traçado.

A ele se agregou, claro, as reflexões sobre o ser e o estar neste mundo. Meu querido pai em muito contribuiu nesse sentido já que debruçava sobre o outro o seu olhar perscrutador, porém generoso e compassivo. E aí, entenda-se: o outro seria sempre aquele que estivesse em desvantagem! Assim, não é de se espantar que as contradições deste mundo se somassem aos meus arquétipos e explodir todo esse “imbróglio” no papel, me parece, hoje, mera e inevitável consequência.

Tudo se inicia, então, na negação da inóspita realidade que circunda, sobretudo, os menos favorecidos. Quanto às crianças, nem falar! A carência do essencial às suas sobrevivências, somada ao quesito educação, se tornaram chagas que me incendiavam intimamente. E foi assim, que, me retirando do status de embevecida e estudiosa professora de língua e literatura inglesas, contando evidentemente com a inspiração do indiscutível sábio Shakespeare, passei a fazer parte da composição de um universo não menos complexo - o pictórico! Precisava fazer... e tratei de mergulhar, com toda a profundidade que me foi possível, no infindável oceano da pintura.

Estudei muito, dediquei-me com afinco e pesquisei incansavelmente. A biblioteca crescendo e o espaço em casa só se estreitando. Livros mil, incontáveis papéis, cola, tintas... noite a dentro. Sempre junto da minha linda companheira Liebe, minha adorada schnauzer de estimação.

Passada a primeira fase, em que o contraste culmina em obras como “O Filme do Absurdo” e o “Sonho Brasileiro”, dei-me conta de que meu fazer em nada agregava, de fato, ao mundo que me cercava. Apesar de cumprir com a tarefa de retratar a dura realidade, na tentativa de gritar a todos a injustiça, o que estaria eu acrescentando de favorável ao que, para mim, já era tão óbvio? E aí, o vórtice mudou. A linguagem se abrandou e o trabalho passou a adentrar-se pelas vielas da “insustentável leveza do ser”. O contraste, este sim, sempre presente, ainda na expectativa de clamar a atenção... pelo material e pelo imaterial. A bendição do espiritual, do inefável, passa, assim, a arrebatar as deformidades do material. Para tal, várias linguagens são então, utilizadas – desde as imagens ao material propriamente dito, empregados na expressão da minha arte.

A colagem permanece, como marca do concreto, mas a acrílica se desenvolve em aguadas, permitindo que a fluidez do verdadeiro e do ser transpasse tudo o que chamamos de realidade. Isso se percebe nos trabalhos que vêm a seguir como “Big City”, “Em Volta do Ipê”, “Entre Acordes” e em todos os demais que vieram em consequência.

As cidades e o concreto, com suas idiossincrasias e desigualdades, e a colagem... A música, a arte, a natureza e as aguadas, contendo a significação da essência e do espírito, que tudo liberta e edifica.

A partir de 2016, o interesse pela impressão e pela arte digital aflora. A marca sobre a superfície, que não seja a do pincel ou do lápis, desperta-me um profundo interesse. Algo velado a ser descoberto! Surge, então, a vontade de explorar tudo outra vez, porém no computador e na monotipia. Que fascínio! Os trabalhos “Cenas de um Guarda-Chuva in Grey”, “Cenas de um Guarda-Chuva – Luminous” e “Autumn” são exemplos dessa virada de paradigma, sendo realizados no computador, com a intervenção posterior de diferentes técnicas mistas para enriquecimento. A monotipia, ainda motivo de interesse, continua como objeto de estudo, a ser explorada nas próximas horas de muito trabalho e pura introspecção.